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domingo, 21 de julho de 2019

Uma liturgia marcada pelo valor da hospitalidade



O Evangelho do 16.º domingo do Tempo comum no Ano C (Lc 10,38-42) situa-nos na caminhada de Jesus com os discípulos para Jerusalém (9,51-19,27), onde vai viver os últimos acontecimentos da Sua passagem pela terra. Durante o percurso, alojou-se em casa de amigos e pessoas bem conhecidas. Desta feita, visita a casa das discípulas Marta e Maria, que viviam em Betânia com o irmão Lázaro (cf Jo 11).  
O episódio da perícopa em referência integra uma estrutura quiástica com a anterior (Lc 10, 25-37): Palavra de Deus sobre a caridade (amor a Deus e ao próximo); prática espelhada na parábola do samaritano; relato da preocupação de Marta para com o próximo; e Palavra de Cristo sobre a necessidade primária da fé para o cristão. Quer dizer que a prática cristã só tem sentido se estiver ensanduichada pela fé e pelo amor, que se quer não interesseiro, lúcido, afetivo e efetivo.
O nome “Marta”, sendo a forma feminina de “marêh” (senhor) significa “senhora”; e Maria aqui não é a de Magdala, mas a que se identifica no 4.º Evangelho (Jo 1,1ss; 12,1-11), pois a descrição destas irmãs assim o leva a inferir. A evocação da viagem, do caminho (en dè tô poreúesthai autoús) neste episódio é de caráter estilístico, pois, do ponto de vista lucano, Jesus ainda não está em Betânia, onde residem as duas irmãs. Marta andava muito atarefada, pois era provável que no encalço de Jesus chegassem mais hóspedes. “Só é necessária uma coisa” – reza o texto atual, o que não é concorde com a tradição manuscrita: Só umas poucas coisas são necessárias, mas certamente só uma, referem alguns manuscritos, enquanto outros rezam Só umas poucas coisas são necessárias (os mais antigos) e outros, Só uma coisa é necessária. Enquanto a segunda versão manuscrita parece indicar que são precisas apenas algumas coisas sobre a mesa para comer, pois estamos no contexto dum banquete, a terceira aponta para a necessidade de algo mais espiritual, sendo que a primeira congraça as duas hipóteses de insinuação.   
Marta, que recebe Jesus, preocupa-se em acolhê-lo e oferecer-lhe uma generosa hospitalidade, enquanto Maria, sentada aos pés do Senhor, na posição e atitude de discípula (8,35; At 22,3), o escutava. Marta, envolvida pelas ocupações quotidianas, reclama com o Mestre, mas é advertida afetuosamente: “Marta, Marta! Tu ocupas-te com muitas coisas, porém uma só é necessária. Maria, ao escutar a palavra, manifesta em Jesus, escolhe a melhor parte que não lhe será tirada. A escolha do único necessário que é Cristo, Amor e Verdade do Pai, assegura o bom êxito do serviço, da diakonia cristã. Aos pés do Senhor, Maria aprende a escuta e ação em consonância com o projeto de vida e salvação. E revela-se aqui o caminho do discipulado caraterizado pela fidelidade à palavra: Felizes os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática (11,28). Alicerçadas na Palavra, contemplação e ação tornam-se dimensões complementares ao serviço do Reino. O encontro com a Palavra torna fecundo o serviço generoso e compassivo ao próximo. Sem a disposição para escutar o Mestre, corre-se o risco de escolher a parte menos boa, arriscando o desvio do caminho do Reino de Deus.
Marta aparece como dona de casa diligente, ativa, preocupada em bem receber os hóspedes. Sente que nem tudo será perfeito, que precisa de ajuda. Intervém junto de Jesus enquanto Ele fala, pedindo que mande Maria a ajudá-la. Mostra-se agastada por lhe parecer, talvez injusto, que todo o trabalho recaia sobre ela e que Maria seja dispensada dele.
A resposta de Jesus é bastante misteriosa: Marta, Marta andas inquieta e agitada. Uma só coisa é necessária … Maria escolheu a melhor parte que não lhe será tirada. Jesus censura a inquietação e a agitação de Marta, que faz muitas coisas ao mesmo tempo; a preocupação de bem receber o seu hóspede domina tudo o resto, quando o importante já não é receber bem o Senhor, mas fazer com que a receção seja um êxito. Marta, invadida pelas preocupações acaba por inverter o valor e a importância das coisas. O zelo tinha-a levado longe de mais: o que era acessório tomara o lugar do essencial.
Há, no texto, um pormenor relevante, o da “posição” de Maria: “sentada aos pés de Jesus”. É a posição típica do discípulo diante do mestre (cf Lc 8,35; At 22,3). É situação surpreendente num contexto sociológico em que as mulheres tinham um estatuto de subalternidade e viam limitados alguns direitos religiosos e sociais; por isso, nenhum “rabbi” da época se dignava aceitar uma mulher no grupo dos discípulos que se sentavam aos seus pés para escutar as suas lições. Lucas (que procura dizer que Jesus veio libertar e salvar os que eram oprimidos e escravizados, nomeadamente as mulheres) mostra, neste episódio, que Jesus não faz qualquer discriminação: o facto decisivo para ser seu discípulo é estar disposto a escutar a sua Palavra.
Não raro, o episódio foi lido em chave de oposição entre ação e contemplação; no entanto, não é isso que está em causa. Lucas não está, nesta catequese, a explicar que a vida contemplativa é superior à vida ativa; está é a dizer que a escuta da Palavra de Jesus é o mais importante para a vida do crente, pois é o ponto de partida da caminhada da fé. Isto não significa que “fazer coisas”, “servir os irmãos” não seja importante; mas significa que tudo deve partir da escuta da Palavra, pois é essa escuta que nos projeta para os outros e nos faz perceber o que Deus espera de nós. Assim, a experiência de Marta é preciosa, pois é um aviso salutar para nós, que não devemos confundir os fins com os meios nem pôr estes acima daqueles. Um único fim é importante: servir o Senhor e não servirmo-nos do dele para as nossas ambições ou desejos pessoais. O próprio serviço do Senhor pode contribuir para isso se não estivermos atentos.
Quantas vezes, até quando nos empenhamos nas obras de apostolado (catequese, liturgia, pastoral social, pastoral familiar, acolhimento, etc.) não nos procuramos mais a nós próprios, ao nosso êxito pessoal do que propriamente a servir os outros ou a Deus!
***
A 1.ª leitura (Gn 18,1-10a) apresenta o acolhimento de Abraão e Sara aos três visitantes, que manifestam a salvação de Deus. A hospitalidade, oferecida pelos pais da fé, é recompensada pela promessa de um filho, o maior desejo de Abraão.
Os capítulos 12-36 do Génesis são textos sem grande unidade e sem caráter de documento histórico ou de reportagem jornalística. Estamos ante uma mistura de “mitos de origem” (narravam a chegada dum “fundador” a um determinado local e a tomada de posse daquela terra), de “lendas cultuais” (relatavam como um deus qualquer apareceu em determinado local a um desses “fundadores” e como esse lugar se tornou um local de culto) e de relatos onde se expressa a realidade da vida nómada durante o 2.º milénio antes de Cristo. Na origem do texto em referência estará uma antiga “lenda cultual” que narrava como três figuras divinas terão aparecido a um cananeu anónimo junto do carvalho de Mambré (perto de Hebron), como o cananeu os acolhera na sua tenda e como fora recompensado com um filho pelos deuses (Mambré era um santuário cananeu, já no terceiro milénio a.C., antes de Abraão aí ter chegado). Mais tarde, quando Abraão ali se estabeleceu, a lenda cananeia foi-lhe aplicada e ele passou a ser o herói desse encontro com as figuras divinas.
No séc. X a.C. (reinado de Salomão), os autores jahwistas recuperaram essa velha lenda para apresentarem a sua catequese. No estado atual do texto, a personagem central é Abraão, a figura que os catequistas jahwistas apresentam aos israelitas da época de Salomão, como um modelo de vida e de fé.
Abraão está “sentado à entrada da tenda, na hora de maior calor do dia”. De súbito, aparecem três homens diante de Abraão, que os convida a entrar, não se limitando a trazer-lhes água para lavar os pés, mas improvisando um banquete com pão recém-cozido, um vitelo “tenro e bom” do rebanho, manteiga e leite. Depois, fica de pé junto deles, na atitude do servo vigilante para que nada falte aos convidados: é a lendária hospitalidade nómada no seu melhor. Abraão surge como o modelo do homem íntegro, humano, bondoso, misericordioso, atento a quem passa e disposto a repartir com ele, de forma gratuita, o que tem de melhor.
Terminada a refeição, é anunciada a Abraão a próxima realização dos seus mais profundos anseios: a chegada dum filho, o herdeiro da sua casa, o continuador da sua descendência. Aparentemente, o dom do filho é a resposta de Deus à ação de Abraão: o autor jahwista quer dizer-nos que Deus não deixa passar em claro, mas recompensa uma tal atitude de bondade, de gratuitidade, de amor.
Complementarmente, fica espelhada a atitude do verdadeiro crente face a Deus. Ao longo do relato – sem que fique expresso se Abraão tem ou não consciência de que está diante de Deus – transparece a serena submissão, o respeito, a confiança total (num desenvolvimento em que Sara ri diante da “promessa”, mas Abraão conserva um silêncio digno, sem manifestar qualquer dúvida): tais são as atitudes que o crente é convidado a assumir diante deste Deus que vem ao encontro do homem.
Atente-se, também, na sugestiva imagem de um Deus que irrompe repentinamente na vida do homem, que aceita entrar na sua tenda e sentar-Se à sua mesa, constituindo-Se em comunidade com ele. Por detrás desta imagem, está o significado do comer em conjunto: criar comunhão, estabelecer laços de família, partilhar vida. O jahwista apresenta, assim, um Deus dialogante, que estabelece laços familiares com o homem, com quem deseja estabelecer uma história de amor e de comunhão. O jahwista aproveitou a velha “lenda cultual” e a figura inspirativa de Abraão para apresentar aos homens do seu tempo o modelo do crente: ele é aquele a quem Deus vem visitar, que o acolhe na sua casa e na sua vida de forma exemplar, que põe tudo quanto possui nas mãos de Deus e que manifesta, com este comportamento, a sua bondade, humanidade, confiança e fé; ele é aquele que partilha o que tem com quem passa e cumpre em grau extremo o sagrado dever da hospitalidade. A realização dos anseios mais profundos do homem é a recompensa de Deus para quem age como Abraão.

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A atitude de hospitalidade perpassa por toda a celebração litúrgica. Deus acolhe-nos, nós acolhemos Deus. A iniciativa é sempre d´Ele que nos ama primeiro. A hospitalidade implica também estar à mesa: Ele está à nossa porta e bate é preciso ouvir a sua voz e abrir, assim cearemos juntos (antífona da comunhão; cf Ap 3,20). Não é comer por comer, mas a partilha da mesa implica em nossa vida partilhar do mesmo destino de Jesus Cristo e para isto é necessário que Ele nos ajude a despojarmos do velho homem e para uma vida nova (oração pós-comunhão).
Para fomentar um ambiente agradável entre as pessoas é indispensável o cultivo dos bons hábitos, chamados vulgarmente virtudes humanas. Entre muitas outras, encontra-se a virtude da hospitalidade, que nos aparece com grande relevo na Sagrada Escritura e é ainda em muitos lugares tida em grande conta. No entanto, podemos perguntar até que ponto ela é possível nos nossos ambientes. As pessoas debatem-se com magros rendimentos, territórios destruídos pelas catástrofes (naturais e humanas), falta de tempo, habitações reduzidas, condicionamentos dos horários de trabalho e séria ameaça à segurança que aconselha a não receber em casa pessoas estranhas. Ademais, parece que é menos necessária hoje a hospitalidade. As pessoas deslocam-se rapidamente dum lugar para o outro, não tendo necessidade de se hospedarem fora de casa.
Não obstante, a hospitalidade, como todas as virtudes, é de todos os tempos. O importante é configurá-la aos tempos em que vivemos, encontrar formas novas de a viver.
Abraão, que recebeu três misteriosas personagens no seu acampamento, quando estava à porta da tenda, por causa do calor sufocante que se fazia sentir, surge como modelo da hospitalidade.
Uma virtude humana indispensável. “Abraão estava sentado à entrada da sua tenda, no maior calor do dia. Ergueu os olhos e viu três homens de pé diante dele. Logo que os viu, deixou a entrada da tenda e correu ao seu encontro.”. Abraão levanta-se prontamente, logo que se dá conta da presença os três personagens. Esta prontidão deixa-nos entrever que estava já habituado a fazê-lo. A hospitalidade, virtude humana que consiste em acolher bem os outros, acolhê-los e partilhar a vida com eles, traz consigo um grande número de virtudes-satélites.
Entre estas, contam-se a cordialidade e a simpatia. Abraão não espera que lhe venham ao encontro e peçam algo de que necessitam. Aproxima-se pressuroso, manifestando a sua alegria em recebê-los. Com efeito, é preciso que as pessoas sintam a nossa alegria em recebê-las.
Outra virtude conexa com a hospitalidade é o espírito de sacrifício. Era a hora mais quente do dia. Numa situação destas, somos tentados a pensar só em nós procurando evitar a temperatura incómoda, desejando que ninguém nos incomode e nos deixem em paz. Ora, sem esta dimensão do sacrifício, as pessoas tornam-se ilhas fechadas e isoladas, tornando impraticável a convivência humana. E o Senhor bate-nos à porta em horas incómodas, misteriosamente presente nos nossos irmãos.
Depois é necessária a abertura do coração. Mais do que abrir a porta de casa ou a bolsa, a hospitalidade consiste em abrir as portas do coração, em encontrar tempo e paciência para escutar e aceitar a partilha de problemas, dores ou preocupações. Abraão nem sequer tem casa para receber, porque vive ainda em nomadismo. Mas nós, hoje temos muitas oportunidades de praticar esta virtude. O isolamento, sobretudo dos mais idosos e doentes que são forçados a permanecer em casa é realidade gritante; muitas pessoas sentem-se asfixiadas pelos problemas da vida e vão até ao desespero. Precisam de quem as oiça. Fomenta-se o voluntariado e as obras de apostolado que oferecem ajuda e são uma forma preciosa de viver em solidariedade, porque trabalham sem qualquer recompensa e apoiam-se num compromisso de continuidade.
Acolher com generosidade. “Mandarei vir água, para que possais lavar os pés e descansar debaixo desta árvore. Vou buscar um bocado de pão, para restaurardes as forças antes de continuardes o vosso caminho, […].”. Abraão segue os costumes do seu tempo. Ofereceu aos misteriosos visitantes água para lavar os pés da poeira dos caminhos e o melhor que tinha nos seus rebanhos e na tenda para lhes preparar uma refeição.
No acolhimento é preciso situar-se bem entre dois extremos: esbanjamento, que tem como origem a tentação da vaidade, de aparentar um luxo que não existe, o que pode acontecer também com o tempo, ocupando espaço que pertence à oração, ao trabalho profissional, aos deveres de estado, etc.; e mesquinhez, que denuncia um coração tacanho, que leva a fazer o menos possível para receber alguém, não estando o problema tanto no que se dá, mas no modo como se dá. A falta de tempo, de disponibilidade, para acolher, pode ser uma máscara para encobrir o egoísmo. Para nos defendermos desta tentação, pensemos em que gastamos o tempo. Talvez houvesse outras coisas menos importantes que poderiam ter cedido o seu lugar a um acolhimento. É generosidade acolher com um rosto sereno quando temos muito que fazer e o tempo é reduzido e quando estamos em más condições de saúde ou cansados ou temos coisas urgentes à nossa espera.
Deus (e Jesus, a sua melhor imagem) recompensa a hospitalidade. “Depois eles disseram-lhe: ‘Onde está Sara, tua esposa?’. Abraão respondeu: ‘Está ali na tenda’. E um deles disse: “Passarei novamente pela tua casa daqui a um ano e então Sara tua esposa terá um filho’.”. Esta promessa aparece diretamente relacionada com o gesto de hospitalidade que Abraão tivera para com eles. Também a viúva de Sarepta ofereceu o último punhado de farinha e as últimas gotas de azeite para que se fabricasse o pão com que Elias matasse a fome, e nunca mais o alimento lhe faltou, até que acabou a seca naquela terra, pois Deus nunca se deixa vencer em generosidade e recompensa sempre a hospitalidade feita por amor d’Ele.
A primeira recompensa que Deus nos oferece pela hospitalidade é uma grande paz e alegria interiores. É o que deve ter sentido Abraão e Sara, depois deste acolhimento caloroso. É alegria de ver o outro feliz, e ter vencido o egoísmo, fazendo algo que talvez nos custasse. Depois, o coração de quem pratica esta virtude dilata-se, cresce na sua capacidade de amar e de vencer o egoísmo que nos fecha em nós mesmos.
A hospitalidade é uma das obras de misericórdia e merece recompensa eterna. No Evangelho do juízo final, Jesus faz consistir o julgamento apenas sobre a caridade que se exprime por estas obras. “Vinde, benditos de Meu Pai…!” (Mt 25,31-46).
E o Evangelho mostra à saciedade o valor da hospitalidade, que merece a recompensa eterna e já neste mundo a recompensa a cem por um. Jesus lava os pés aos discípulos e quer que eles façam o mesmo aos outros, aceita a unção duma pecadora, tal com aceitou o convite do fariseu para um banquete (Lc 7,37-50), como aceitou a unção de Maria de Betânia (Jo 12,1-11). 
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A hospitalidade pratica-se entre famílias com relações de amizade, que se encontram em almoços, jantares, passeios em comum e, mesmo, acolhendo-se na casa uns dos outros.
Quando as viagens eram longas e penosas, esta espécie de hospitalidade era mais necessária. A mãe de São João Bosco e os pais de São João Maria Vianney recebiam em sua casa viajantes, pobres e desertores dos exércitos, ofereciam-lhes comida e dormida. Hoje, porém, por causa dos exigentes horários de trabalho, habituações reduzidas ao mínimo indispensável, e até por causa da falta de segurança crescente, fica desmotivada esta espécie de hospitalidade. Ademais, parece que agora é menos necessária, por as viagens serem rápidas, e não se dispõe de tempo. Mas há formas de hospitalidade e de acolhimento muito necessárias no nosso tempo.
Hoje a hospitalidade concretiza-se em encontrar tempo e disposição para os outros: visitando idosos e doentes que passam o dia sós ou em lares perdidos no anonimato, embora identificados; disponibilizando-se para ouvir os que sofrem e iluminar o seu sofrimento e debilidades à luz da fé com a ternura do coração magnânimo; e acolhendo quem nos surge no caminho a abrir o seu coração e receber uma palavra amiga que lhe possa orientar a vida.
2019.07.21 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Baco e Vénus n’ Os Lusíadas: o mito a escorrer para o real


O facto de o enunciado da prova de Português 12.º ano (cód 639), na 2.ª fase dos exames nacionais, ter feito a transcrição das estâncias 26-29 do Canto VI d’ Os Lusíadas, no quadro do Consílio dos deuses marinhos (estâncias 16-37), cuja convocação foi feita, através de Tritão, por Neptuno a rogo de Baco para tentar induzir os deuses marinhos a impedirem os lusos de alcançar a Índia, fez-me pensar na função da mitologia na epopeia camoniana e, em especial, nas intenções e nos papéis de Baco e Vénus na trama, representando os interesses antagónicos dos seres humanos. E se a mitologia, preceituada pelas regras clássicas na epopeia, parece anacrónica e obsoleta na época moderna da História e ímpia num poema dum autor cristão (pelo que foi objeto de tantas críticas), não deixa de se configurar, segundo o discurso pessoano, em “O mito é o nada que é tudo (…) /Assim a lenda se escorre / A entrar na realidade (…).”     
Enquanto Homero e Virgílio terão acreditado nos deuses greco-romanos, Camões, homem de fé cristã, cria no único Deus vivo e verdadeiro, próximo e transcendente. Porém, como poeta, figurou a crença funcional naqueles deuses, não os encarando na obra como simples ornamento. Com efeito, a mitologia n’Os Lusíadas não é mero enfeite, nem simples coletânea de símbolos; Camões, alcandorando os deuses e deusas ao estatuto de personagens da narrativa, apôs-lhes a chancela da credibilidade e ornou-os com a garantia da verosimilhança, inerentes ao estatuto da personagem. No universo ficcional plasmado no texto, os deuses têm existência verídica e intervêm na ação. E a sua intervenção na economia da epopeia materializa-se na sequência narrativa da viagem, sequência central na complexa estrutura da epopeia camoniana, funcionando eles à laia de motores de propulsão do devir dos acontecimentos. E fazem-no, ora de forma individual e bilateral, ora de forma solene e coletiva, mas nesta salvaguardando a celestial hierarquia. Assim, irrompem os dois consílios: o ecuménico no canto I (início do 1.º ciclo épico), no Olimpo, convocado por Júpiter, o Padre dos deuses e dos homens, através de Mercúrio; e o provincial, o dos deuses marinhos, no Canto VI (início do 2.º ciclo épico), convocado por Neptuno. Por outro lado, narração inicia-se in medias res sendo interrompida logo no início, para dar lugar ao consílio dos deuses no Olimpo. Assim, o que se passar depende da vontade e ação dos deuses, tal como, a partir da deliberação de Neptuno, no segundo consílio, a ação vai depender da vontade dos deuses do mar, deuses prestes ao penoso esbulho de seus domínios.
A armada de Vasco Gama não entra em Mombaça por dificuldades de manobra; surge a tempestade marítima (fenómeno natural, cientificamente explicável). Contudo, para o poeta n’ Os Lusíadas, que não são livro de História nem tratado científico de fenómenos atmosféricos, quem impediu a destruição da armada, em porto hostil, foi Vénus e “as alvas filhas de Nereu” (II,18-23); e quem desencadeou a raivosa procela foram os ventos que Éolo soltou “do cárcere fechado”, cumprindo assim a resolução do consílio dos deuses marinhos, e apoiando, desta forma, os planos de Baco, que assim o solicitara:  
Já lá o soberbo Hipótades soltava / o cárcere fechado os furiosos /Ventos, que com palavras animava /Contra os varões audaces e animosos. /Súbito, o céu sereno se obumbrava, /Que os ventos, mais que nunca impetuosos, /Começam novas forças a ir tomando, /Torres, montes e casas derribando. (VI, 37).
***
Nestes termos, a presença dos deuses não é esfumada ou diáfana, mas tangível e poderosa. O retrato físico de Vénus é de contornos mais nítidos que o de Maria ou o de Inês de Castro; o retrato psicológico de Baco é mais matizado que o do Gama. Os deuses têm, por vezes, como personagens, maior densidade que os humanos. Por exemplo, o Gama, figura obcecada, fica-se no sentido de obediência às distantes ordens de Dom Manuel, transformando-se num capitão cumpridor, não se deixando desviar por nenhuma curiosidade e tendendo para um estatismo pouco adequado a um comandante em chefe e ao desenvolvimento da ação. Baco, ao invés, é vivo, contraditório, sempre em movimento físico e anímico. São, pois, os deuses quem verdadeiramente dinamiza a ação e geram o interesse narrativo da epopeia: lutam e fazem dos homens instrumentos da sua luta e ambição. O móbil da luta de Baco é o interesse pessoal, tal como o de Vénus, a deusa aguerrida, como decorre claramente da estância 34 do canto I:
Estas causas moviam Citereia, /E mais, porque das Parcas claro entende /Que há de ser celebrada a clara Deia /Onde a gente belígera se estende. /Assi que, um, pela infâmia que arreceia, /E outro, pelas honras que pretende, /Debatem, e na porfia permanecem; /A qualquer seus amigos favorecem.
Os navegadores portugueses, em vez de protagonistas da luta, surgem como objeto das lutas que os ultrapassam. Vénus luta por eles, porque os considera aliados e fautores da fama e glória da Deusa; Baco hostiliza-os ativamente, até pela traição e dissimulação, porque se sente ameaçado pela desonra infâmia que eles lhe provocarão. Vénus quer ser sempre amada e adorada, pelo que aproveita o fado dos portugueses como fator dessa adoração. Obviamente não o diz, antes justifica a sua proteção aos lusitanos, aduzindo que lhe recordam os romanos, até pela língua, que parece a latina pouco alterada. Mas tal elogio e afeição não são o seu escopo, mas um pretexto para justificar a sua atitude, não são a sua verdadeira e fundamental razão (IX,38,1-4).
Por sua vez, Baco não quer deixar de ser adorado na Índia (região que, nos termos da lenda, tomou e submeteu), pelo que luta, por todos os meios ao seu alcance, contra os novos potenciais dominadores que o condenarão ao esquecimento. Ambas as divindades em causa conhecem o desfecho dos acontecimentos, porque a lei do Destino caprichoso é inexorável a ponto de nem o Padre Júpiter a poder revogar ou alterar (I, 28,1-2). Vénus sabe que os portugueses levarão a melhor e contribui para que a viagem decorra com o mínimo de incómodo. Baco também o sabe e sabe que da irremediável e irreversível derrota que sofrerá, mas, em vez de abdicar da manutenção do seu status no Oriente, aceitando a lei do Fado, luta constantemente, procurando vencer a guerra que sente perdida. O desafio de Baco ao Destino configura a hýbris da tragédia vindo a travar o ágnon, acabando por se aproximar das vítimas que sofrem a catástrofe, quando, após a peripécia, o látego do destino se abate sobre o pretenso herói. Baco é uma personagem sem esperança alicerçada na razão, pelo que, o seu descontrolo é demencial, o que o torna uma figura que tanto desperta repulsa como compaixão (éleos), enquanto Vénus aparece como uma figura atraente, simpática, mas não mobilizadora para quem a contemple. A deusa do amor e da beleza é sedutora e utiliza, com saber e astúcia, o seu poder sedutor; Baco, por seu turno, é também sabedor e astuto, mas o peso da derrota anunciada e não aceite dá-lhe uma dimensão patética (páthos), contrastante com a leveza de Vénus. Tais situações ficam ilustradas com as cenas das lágrimas como instrumento de súplica e dissuasão. Assim, o choro sedutor de Vénus ante Júpiter não surpreende. As lágrimas, embora convençam e comovam Júpiter, despertam-lhe, sobretudo, o ardor erótico (II,42,5-8). Já as lágrimas de Baco, coroando um quadro de encenação, têm a força expressiva que as de Vénus não têm, aproximando-se do comovente e convincente “medonho choro” do Adamastor (V, 60), uma das figuras mais dramáticas de Os Lusíadas, e remetem-nos para as várias cenas de lágrimas, mormente a da partida das naus, quando nos aparecem nas tocantes figuras da mãe desamparada e da jovem esposa inconsolável (IV, 89-92). Vénus chora “de mimosa”, por não estar a correr como desejava a empresa que sabe que vai ser coroada de êxito; e Baco chora de desespero, por saber que, mesmo com todas as artimanhas utilizadas e a utilizar e mesmo com a ajuda dos deuses marinhos, não vencerá:
«E por isso do Olimpo já fugi, /Buscando algum remédio a meus pesares, /Por ver o preço que no Céu perdi, /e por dita acharei nos vossos mares.» /Mais quis dizer, e não passou daqui, /Porque as lágrimas já, correndo a pares, /Lhe saltaram dos olhos, com que logo /Se acendem as Deidades d’água em fogo. (VI, 34).
É sobre este deus invejoso, rebelde, enlouquecido, com o desconcerto e a birra dum adolescente, que se abate a lei do Destino; e a rejeição dessa lei inexorável não o torna particularmente repulsivo. Ele não é apenas o deus “odioso”; é o lutador, condenado à má fortuna, a que o poeta também não escapou. Além disso, é necessário ao interesse da ação o papel negativo deste deus, sobre quem se abate a acusação de inveja da parte de Marte, o grande aliado de Vénus, por quem andara outrora perdido de amores (amores e guerra costumam ser bons aliados). Sem as suas artimanhas não havia interesse narrativo, porque o cumprimento das leis dum destino favorável aos portugueses não cria, por si, conflito nem drama. Por outro lado, o deus da vinha e do vinho, das festarolas e orgias, essencial ao progresso da ação, é conveniente para o reforço valorativo da ação dos portugueses, pois, se estes têm valor, ele provém da capacidade de lutar contra as adversidades, sob a tutela de Vénus. As importantes intervenções de Vénus não contribuem para realçar o valor dos portugueses, que são seus protegidos, mas para relevar o valor da deusa e das suas cooperadoras, ao passo que Baco, sem o pretender, releva o valor dos nautas lusitanos. A deia intervém depois do divo, que toma a iniciativa da ação, enquanto Vénus se limita a reagir.
E Baco tem um outro papel fundamental: o da visão do outro lado da moeda do comportamento dos portugueses. O ponto de vista desta personagem quanto às ações e caráter dos lusos é muito negativo. Os lusitanos são, na sua ótica, ladrões e assassinos. É óbvio que a focalização de Camões-narrador aponta num outro sentido, mas a perspetiva da personagem e a do narrador não se afastam de maneira total. Por exemplo, na cena da escaramuça na ilha de Moçambique, Baco, disfarçado de velho Mouro sábio, estimado pelo Xeque local, dirige-se-lhe nestes termos:
– E sabe mais (lhe diz), como entendido /Tenho destes Cristãos sanguinolentos, /Que quási todo o mar têm destruído /Com roubos, com incêndios violentos; /E trazem já de longe engano urdido /Contra nós; e que todos seus intentos /São pera nos matarem e roubarem, /E mulheres e filhos cativarem. (I, 79).
E, na estância 89 do canto I, o narrador relata a escaramuça entre Portugueses e Mouros:
Não se contenta a gente Portuguesa, /Mas, seguindo a vitória, estrui e mata; /A povoação sem muro e sem defesa /Esbombardeia, acende e desbarata. /Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, /Que bem cuidou comprá-la mais barata; /Já blasfema da guerra, e maldizia /O velho inerte e a mãe que o filho cria.
Baco não estava totalmente errado quando apontava a índole sanguinolenta destes cristãos. O interesse egoísta de Baco (filho de Luso) desmonta a dita generosidade dos novos senhores, que vêm de longe, com um interesse também egoísta. E Camões acusa, por vezes, os portugueses de mesquinhos, egoístas e mesmo traidores, alguns algumas vezes. E o exaustivo levantamento das inúmeras batalhas e o assassinato de Inês de Castro, por pressão do povo e conselho régio, também revelam o caráter sanguinário dos portugueses, que não se inibem de fazer a guerra aos inimigos. Baco recusa ser vítima do pior dos males – o esquecimento – que na cosmovisão camoniana é uma condenação sem remédio e letal.
Depois, a luta de Baco tem uma dimensão solidária e comunitária, pois o deus pretende assumir-se como defensor das terras que estão a ser conquistadas. Enquanto Vénus protege o invasor, Baco protege o invadido. Por isso, a sua denúncia aproxima-se dos impropérios do Velho do Restelo e das censuras do poeta. Como diz Vasco Graça Moura, “Baco...é fundamentalmente a voz que desfia o requisitório das populações do oriente atingidas por quase um século de expansão cobiçosa e de não muito fundos escrúpulos”. É, pois, também uma voz humanista a juntar-se àquelas que denunciam a ganância, a busca da fama, a perda inexorável de vidas.
Como ficou entredito, a posição de Camões não é inquestionavelmente encomiástica dos portugueses. O vate não pensa que os portugueses sejam ladrões e assassinos. Quem pensa isso é Baco, personagem construída e modelada pelo poeta; porém, os portugueses não são todos e sempre os heróis grandiosos enunciados na Proposição, na Invocação e na Dedicatória do canto I. Anote-se que o herói é coletivo (o povo português), mas aristocrático (“ peito ilustre lusitano”). O herói não é a arraia-miúda enaltecida por Fernão Lopes, mas o peito (os nobres ou equiparados) ilustre (os esforçados ou que merecem a fama). E mesmo estes poderiam ter cultivado as letras como faziam os antigos, que tinham numa das mãos a espada e na outra a pena, como poderiam não se deixar levar pelo dinheiro que tudo subverte e manter sempre a dignidade e a honradez.
É certo que, no final do canto V, o Gama termina o longo discurso em que narra ao rei de Melinde a história de Portugal, enquadrada no espaço europeu e africano rumo à Asia, respondendo assim ao pedido que o rei lhe formulara na estância 109 do canto II “Mas antes, valeroso Capitão,/Nos conta...”. E, ao findar o relato, insiste no heroísmo dos portugueses, e diz no final da estância 89:
A verdade que eu conto, nua e pura, /Vence toda a grandíloca escritura.
Não obstante, ao retomar o comando do discurso narrativo, Camões-narrador atenua a grandiosidade hiperbólica do relato de Vasco da Gama:
Trabalha por mostrar Vasco da Gama /Que essas navegações que o mundo canta /Não merecem tamanha glória e fama /Como a sua, que o Céu e a Terra espanta. /Sim; mas...” (V, 94, 1-5).
Na verdade, segundo o épico, “o valeroso capitão” não merece o esforço do poeta, porque, à semelhança de outros portugueses ilustres, é um herói incompleto (V,97-99). A menção de Eneias, Aquiles, Júlio César, Alexandre, Homero e Virgílio, põe a reflexão do poeta sob o signo da dúvida e da desilusão. Camões evolui ao longo do poema, parecendo que o envelhecimento lhe traz a desilusão. O otimista do início do canto I não é o mesmo que, desapontado, emerge no final do canto V. Começando pela superação das figuras heroicas de Alexandre e Trajano por parte dos portugueses, nos dois últimos versos do poema, são ainda mencionados Alexandre e Aquiles, como se o poeta, numa atitude de incentivo e súplica a Dom Sebastião, reconhecesse que não tinha ainda heróis reais capazes de suplantar os ficcionados. Como diz Eduardo Lourenço “Procura-se o herói da epopeia e não se encontra ou encontra-se e fica-se desiludido pelo seu perfil de figurante de papelão”. Assim, parece que os verdadeiros aliados do poeta são Vénus, Baco, as Ninfas (do Tejo e do Mondego), Calíope e todas as divindades construídas pelo poeta, que vêm a contribuir para propiciar ao escritor/narrador e ao leitor/ouvinte o poder e o prazer da poesia. Com efeito, são eles que não permitem que se alague cedo “o fraco batel” (VII,78). E, quando, no canto X, estância 82, Tétis diz a Gama “Só pera fazer versos deleitosos/servimos…”, fica desmascarado o papel da mitologia. Estes deuses e deusas, as musas e as ninfas só têm existência em poema, não na realidade viva. E é sobretudo a beleza dos versos deleitosos (em si mesmos e nos efeitos que produzem no leitor/ouvinte), que faz d’ Os Lusíadas um texto atual, vivo e cativante. Mas a mitologia serve, para lá dos versos deleitosos, para espelhar as lutas pela fama, poder e haveres que movem os humanos por interesse e inveja, medo de perder privilégios e status, objetivos tantas vezes disfarçados de desapego, solidariedade, altruísmo e bairrismo.
Humanizando os deuses e despindo-os da aura da divindade, cria-se o vazio no Olimpo, para que os humanos que o merecem “por obras valerosas” ocupem o lugar dos deuses.
(vd A. Manuel Ferreira, Duas personagens de Os Lusíadas: Vénus e Baco – Universidade de Aveiro, in II Colóquio Clássico, Actas)   
***
Assim, as estrofes transcritas para o enunciado da referida prova de exame, que se podem ler abaixo, dão-nos conta da argumentação de Baco para convencer Neptuno, Oceano e os outros deuses marinhos a serem seus aliados, constante do discurso do deus inimigo dos lusos, proferido logo que os componentes do conselho marinho se acondicionaram nos seus lugares (estância 26) após o rodopio gerado pela convocação badalada por Tritão. Na verdade, muito parecido com tantos humanos, Baco (estâncias 27 e 28) adula Neptuno a quem denomina de Príncipe, Oceano e os outros deuses marinhos, quer pela vastidão dos seus domínios, quer pelo estilo firme com que exercem habitualmente o poder (Com efeito Neptuno e o grande Oceano dominam os mares e impedem que os humanos ultrapassem os limites por eles definidos e impostos; os demais deuses marinhos vingam-se de qualquer humano que se atreva a atravessar o seu território: era o caso do Adamastor); a seguir, recorrendo à interrogação retórica, denuncia-lhes o descuido face ao atrevimento dos portugueses e a brandura com que os tratam, revelando distração, subvalorização destes invasores e fraqueza supina. Assim, esfumar-se-á o poder dos deuses e prevalecerá a ousadia dos lusos. E, obtida a permissão de Júpiter e esvaziado o poder dos deuses do mar, cria-se espaço propício à mitificação do herói, ou seja, a mítica divinização do peito ilustre, visível: na valorização da coragem/atrevimento dos Portugueses, capazes de desafiar os deuses – “Vistes que, com grandíssima ousadia, /Foram já cometer o Céu supremo” (vv. 25-26); no relevo conferido à capacidade de superar a condição humana, patente no facto de os Portugueses se aventurarem pelo mar desconhecido – “Vistes aquela insana fantasia /De tentarem o mar com vela e remo” (vv. 27-28); e, no reconhecimento da superioridade dos Portugueses em relação aos outros homens, patente no receio de Baco de que estes se convertam em Deuses e os Deuses em humanos – “temo /Que do Mar e do Céu, em poucos anos, /Venham Deuses a ser, e nós, humanos” (vv. 30-32).
Mas foram os deuses que possibilitaram tais gestas. Disse Marte:
“E tu, Padre de grande fortaleza, /Da determinação que tens tomada /Não tornes por detrás (…). /Mercúrio, pois excede em ligeireza /Ao vento leve e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra onde se informe Da Índia, e onde a gente se reforme.” /Como isto disse, o Padre poderoso, /A cabeça inclinando, consentiu /No que disse Mavorte valeroso /E néctar sobre todos esparziu. (I, 60-61).
E (…)Thétis, indinada, lhe bradou: /Neptuno sabe bem o que mandou! (VI, 36).
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Eis as estrofes da prova de exame, que ilustram quanto foi dito:
26
Estando sossegado já o tumulto
Dos Deuses e de seus recebimentos,
Começa a descobrir do peito oculto
A causa o Tioneu de seus tormentos;
Um pouco carregando-se no vulto,
Dando mostra de grandes sentimentos,
Só por dar aos de Luso triste morte
Co ferro alheio, fala desta sorte:

28
«E vós, Deuses do Mar, que não sofreis
Injúria algũa em vosso reino grande,
Que com castigo igual vos não vingueis
De quem quer que por ele corra e ande:
Que descuido foi este em que viveis?
Quem pode ser que tanto vos abrande
Os peitos, com razão endurecidos
Contra os humanos, fracos e atrevidos?


27
— «Príncipe, que de juro senhoreias,
Dum Polo ao outro Polo, o mar irado,
Tu, que as gentes da Terra toda enfreias,
Que não passem o termo limitado;
E tu, padre Oceano, que rodeias
O Mundo universal e o tens cercado,
E com justo decreto assi permites
Que dentro vivam só de seus limites;
29
«Vistes que, com grandíssima ousadia,
Foram já cometer o Céu supremo;
Vistes aquela insana fantasia
De tentarem o mar com vela e remo;
Vistes, e ainda vemos cada dia,
Soberbas e insolências tais, que temo
Que do Mar e do Céu, em poucos anos,
Venham Deuses a ser, e nós, humanos.







(VI,26-29)

Deuses descem abaixo dos homens e homens ocupam o lugar de deuses!
2019.07.19 – Louro de Carvalho

terça-feira, 23 de outubro de 2018

O Sínodo dos Bispos de 2018 em metodologia da Ação Católica


Um texto de Solange Pereira (diretora da JOC) e do Padre Valentim Gonçalves (CJP-CIRP - Comissão Justiça e Paz da Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal) publicado, no passado dia 21 no site do jornal “Voz da Verdade”, na secção “Doutrina Social” aborda alguns pontos do Sínodo dos Bispos que está a decorrer no Vaticano segundo a tríplice categorização metodológica da Ação Católica: Ver, Julgar e Agir – assumindo esta abordagem com a Visão da JOC.

Começa por registar as três novidades do Sínodo: “a presença de jovens, a presença de dois bispos chineses depois da assinatura de um acordo provisório para a nomeação de bispos e ainda a I Assembleia com o novo enquadramento jurídico apresentado pelo Papa na constituição apostólica “Episcopalis Communio”, reforçando o papel do Sínodo na linha do Vaticano II”.
Depois, na categoria do Ver, sublinha-se, da declaração do Cardeal Baldisseri, dias antes da assembleia, a asserção, no âmbito dos desafios que se lhe colocam, de que “a Igreja não tem medo de enfrentar esses desafios que são sempre difíceis e cheios de obstáculos”. E transcreve-se a afirmação do Papa Francisco num encontro com jovens de diversas religiões aquando da visita aos países bálticos:
Sabemos que muitos jovens não nos pedem nada, porque não nos consideram interlocutores significativos na sua existência. Alguns pedem expressamente para serem deixados em paz, porque sentem a presença da Igreja como algo molesto e irritante. É verdade. Ficam indignados com os escândalos sexuais e económicos contra os quais não veem uma clara condenação. O não saber interpretar adequadamente a vida e a sensibilidade dos jovens por falta de preparação ou simplesmente pelo papel passivo que lhes atribuímos. Estes são alguns dos vossos pedidos. Queremos dar-lhes resposta, queremos ser uma comunidade transparente, acolhedora, honesta, atraente, comunicativa, acessível, alegre e interativa.”.
Sendo este o tom para o percurso sinodal, os jovens presentes contribuem, no quadro desta problemática e de outras, “com um grande impacto social como o desemprego, as redes sociais, a pobreza e a educação”.
Na categoria do Julgar, atenta particularmente aos problemas do trabalho, desemprego, educação e pobreza, a JOC (Juventude Operária Católica), apesar da sua presença minoritária e, por vezes, suspeita na Igreja, não desiste de lidar com as magnas questões do trabalho, precariedade, horários, desemprego, política de salários, justiça social – lutando por um trabalho digno e justo segundo a batuta de Francisco:
O problema é não levar o pão para casa, isto tira a dignidade… temos que trabalhar e defender a dignidade que nos dá o trabalho”.
Por isso, a preocupação da JOC é “denunciar situações que ofendam a dignidade dos jovens” e alertar “para que estes fiquem despertos para outras semelhantes”.
Com efeito, para os articulistas, a falta de dignidade surge já na procura do primeiro emprego e nas dificuldades sentidas na tentativa de inserção no mundo do trabalho: trabalho a recibos verdes ou a contratos a termo e de curto-prazo, sem o exercício de direitos fundamentais como férias, baixa por incapacidade e subsídio de desemprego; instrumentalização empresarial dos jovens para obtenção da produtividade desejada; excesso de trabalho, horas extraordinárias (muitas vezes não remuneradas); clima de competitividade; salários precários; e bullying por parte dos colegas e da entidade patronal – a prejudicar a saúde física e mental dos jovens e os seus projetos de vida.
São estas as chagas sociais que, não sendo exclusivas dos jovens, os atingem logo ao despertar para a vida ativa, gerando a desilusão e a falta de esperança.
E, na linha do Agir, a JOC declara:
Ansiamos que o Sínodo leve esperança aos jovens que se encontram em situações de precariedade e de indignidade e lhes dê coragem de denunciar o que asfixia a vida. Que as palavras RESPEITO, LIBERDADE e DIREITOS sejam um pilar neste Sínodo. Esperamos que seja um Sínodo, não só para escrever um documento a falar dos jovens, mas sim um momento em que se pense a juventude com os jovens.”.
Escudado na afirmação do Papa no terceiro dia de Sínodo de que os jovens “não são mercadorias num leilão”, pedindo que não se deixem comprar, não se deixem seduzir, não se deixem escravizar pelas colonizações ideológicas” e exortando a que se apaixonem “pela liberdade de Jesus”, este movimento eclesial de juventude assegura:
Trabalhamos para que eles não sejam vistos como objeto, mas como meio para levar Jesus Cristo a outros jovens, como dizia o nosso fundador Joseph Cardijn: ‘Cada trabalhador e cada trabalhadora deve viver a experiência do amor de Deus. Não se pode respeitar a Deus, se não se respeitar os trabalhadores e as trabalhadoras, que são a imagem de Deus’..
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Vistas bem as coisas, é de referir que em todos os documentos atinentes ao Sínodo está subjacente esta metodologia da Ação Católica, obviamente não como se fora em compartimentos estanques, mas no sistema de predomínio a par da transversalidade temática e da permeabilidade e atitudinal.
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Assim, logo o Documento Preparatório, sob o lema “Nos passos do discípulo amado”, distribui as matérias por três capítulos:
I – Os jovens no mundo de hoje (é a categoria do Ver) desdobra-se em três subcapítulos: 1. Um mundo que se transforma rapidamente; 2. As novas gerações, com os itens “pertença e participação”, pontos de referência pessoais e institucionais e rumo a uma geração (hiper)conectada”; e 3. Os jovens e as escolhas.
II – Fé, discernimento e vocação (é a categoria do Julgar) desdobra-se em quatro subcapítulos: 1. Fé e vocação; 2. O dom do discernimento (discernir é julgar à luz da Palavra de Deus devidamente escutada e meditada), com os itens “reconhecer”, “interpretar e “escolher”; 3. Percursos de vocação e missão; e 4. O acompanhamento.
III – A ação pastoral (é a categoria do Agir ou indicações de planeamento da ação) desdobra-se em cinco subcapítulos: 1. Caminhar com os jovens, com os itens “sair”, “ver” e “chamar”. 2. Sujeitos, com os itens “todos os jovens, sem exclusão alguma”, “uma comunidade responsável” e “ as figuras de referência”. 3. Lugares, com os itens “a vida quotidiana e o compromisso social”, “os âmbitos específicos da pastoral” e “o mundo digital”. 4. Instrumentos, com os itens “as linguagens da pastoral”, “a atenção à educação e os percursos de evangelização” e “silêncio, contemplação, oração”. E 5. Maria de Nazaré, pois “cada jovem pode descobrir na vida de Maria o estilo da escuta, a coragem da fé, a profundidade do discernimento e a dedicação ao serviço” (cf Lc 1,39-45).
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Por seu turno, o Documento final da Reunião Pré-sinodal, da passada primavera, estrutura-se em três partes, em que se podem ver, respetivamente as categorias do Ver ou análise da realidade, com os desafios e as oportunidades; do Julgar ou a reflexão à luz da Palavra de Deus e na atenção aos Sinais dos Tempos; e do Agir ou do encontro de elementos para planear a ação pastoral eficaz. É, entretanto, de advertir que este julgamento não pode ser pautado por critérios meramente humanos, mas pela consonância tanto quanto possível com o juízo de Deus.
Parte I – Desafios e oportunidades dos jovens no mundo de hoje, com os itens: (1) A formação da personalidade; (2) Relação com os outros; (3) Os jovens e o futuro; (4) Relação com a tecnologia; e (5) A busca de sentido de vida.
Parte II – Fé e vocação, discernimento e acompanhamento, com os itens: (6) Os jovens e Jesus; (7) A Fé e a Igreja; (8) O sentido vocacional da vida; 9) Discernimento vocacional; (10) Jovens e acompanhamento.
Parte III – Atividades formativas e pastorais da Igreja, com os itens: (11) O estilo da Igreja; (12) Jovens Protagonistas; (13) Lugares preferenciais; (14) Iniciativas a serem reforçadas; e (15) Instrumentos a serem usados.
Como é de esperar, a fase da ação tem de considerar as descobertas da análise da realidade.

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Por fim, o Instrumentum Laboris, que é o documento de referência para os trabalhos sinodais, estrutura-se em Introdução (com as finalidades do Sínodo, o método do discernimento e explicação da estrutura do texto), três partes (Reconhecer, Interpretar, Escolher), Conclusão (com os itens: a vocação universal à santidade; a juventude, um tempo para a santidade; e jovens santos e juventude dos santos) e Oração pelo Sínodo (dirigida ao Senhor Jesus). 
IRECONHECER: A IGREJA À ESCUTA DA REALIDADE. É um momento de análise da realidade ou Ver, distribuída por cinco capítulos, com vários itens:
I. SER JOVEM HOJE – uma abrangente variedade de contextos; diante da globalização; o papel das famílias; as relações intergeracionais;  as escolhas de vida; educação, escola e universidade; trabalho e profissão; e juventude, fé e religiões. 
II. EXPERIÊNCIAS E LINGUAGENS – compromisso e participação social;  espiritualidade e religiosidade; os jovens na vida da Igreja; a transversalidade do continente digital; a música e as outras formas de expressão artística; e o mundo do desporto. 
III. NA CULTURA DO DESCARTE – a questão do trabalho; os jovens migrantes; as várias formas de discriminação; e doença, sofrimento e exclusão. 
IV. DESAFIOS ANTROPOLÓGICOS E CULTURAIS – o corpo, a afetividade e a sexualidade; novos paradigmas cognitivos e busca da verdade; os efeitos antropológicos do mundo digital; a deceção institucional e as novas formas de participação; a paralisia decisória na superabundância das propostas; e além da secularização. 
V. À ESCUTA DOS JOVENS – a fadiga de escutar; o desejo de uma “Igreja autêntica”; uma Igreja “mais relacional”; uma comunidade “comprometida com a justiça”; a palavra dos seminaristas e dos jovens religiosos. 
II – INTERPRETAR: FÉ E DISCERNIMENTO VOCACIONAL. É um momento da procura do confronto de realidade analisada com as exigências e alegrias da Fé, o discernimento sobre como responder àquilo a que Deus nos chama – o Julgar, distribuído por quatro capítulos, com vários itens:
I. A BÊNÇÃO DA JUVENTUDE – Cristo “jovem entre os jovens”; a chamada universal à alegria do amor; vigor físico, fortaleza de alma e coragem de arriscar; incerteza, medo e esperança; queda, arrependimento e acolhimento; disponibilidade para ouvir e necessidade de acompanhamento; amadurecimento da fé e dom do discernimento; e projeto de vida e dinâmica vocacional. 
II. A vocação à luz da fé – a vida humana no horizonte vocacional; chamados em Cristo; a sair de si mesmos; para a plenitude da alegria e do amor; a vocação a seguir Jesus; a vocação batismal; a chamada dos apóstolos; a vocação da Igreja e as vocações na Igreja; os diferentes caminhos vocacionais; a família; o ministério ordenado; a vida consagrada; profissão e vocação; e a condição inédita dos solteiros. 
III. O DINAMISMO DO DISCERNIMENTO VOCACIONAL – o pedido de discernimento; o discernimento na linguagem comum e na tradição cristã; a proposta do discernimento vocacional; reconhecer, interpretar, escolher; o papel da consciência; e o confronto com a realidade. 
IV. A ARTE DE ACOMPANHAR – “acompanhamento” pode ser dito em vários modos; acompanhamento espiritual; acompanhamento psicológico; acompanhamento e sacramento da reconciliação; acompanhamento familiar, educacional e social; acompanhamento na leitura dos sinais dos tempos; acompanhamento na vida quotidiana e na comunidade eclesial; as qualidades daqueles que acompanham; e acompanhamento dos seminaristas e jovens consagrados.
III - ESCOLHER: PERCURSOS DE CONVERSÃO PASTORAL E MISSIONÁRIA.  
I – UMA PERSPETIVA INTEGRAL – o discernimento como estilo de uma Igreja em saída; Povo de Deus num mundo fragmentado; e uma Igreja generativa. 
II – IMERSOS NO TECIDO DA VIDA QUOTIDIANA – o acompanhamento escolar e universitário; a exigência de um olhar e de uma formação integra; as especificidades e a riqueza das escolas e universidades católicas; economia, trabalho e cuidado da casa comum; à procura de novos modelos de desenvolvimento; o trabalho perante a inovação tecnológica; colaborar na criação de empregos para todos; na trama das culturas juvenis; formar para a cidadania ativa e para a política; aprender a habitar o mundo digital; a música entre interioridade e afirmação da identidade; desporto e competição; a amizade e o acompanhamento entre pares; proximidade e apoio na dificuldade e na marginalização; deficiência e doença; dependências e outras fragilidades; com jovens prisioneiros; em situações de guerra e violência; jovens migrantes e a cultura do acolhimento; perante a morte; e acompanhamento e anúncio. 
III. Uma comunidade evangelizada e evangelizadora – uma ideia evangélica de comunidade cristã; uma experiência familiar de Igreja; o cuidado pastoral para as jovens gerações; a família, sujeito privilegiado da educação; à escuta e em diálogo com o Senhor;  na escola da Palavra de Deus; o gosto e a beleza da liturgia; nutrir a fé na catequese; acompanhar os jovens rumo ao dom gratuito de si; e comunidade aberta e acolhedora para todos. 
IV. Animação e organização da pastoral – o protagonismo juvenil; a Igreja no território; a contribuição da vida consagrada; associações e movimentos; redes e colaborações a nível civil, social e religioso; o planeamento pastoral; a relação entre eventos extraordinários e vida quotidiana; rumo a uma pastoral integrada; e seminários e casas de formação. 
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Face ao exposto, pergunto-me como é que a Ação Católica em Portugal (que formou tão boa gente e a capacitou para a intervenção no apostolado, até com mandato da Hierarquia) ficou reduzida a uns pequenos grupos, ainda que persistentes e aguerridos. Se a sua metodologia passou aos documentos do Magistério e se acomoda, à boa maneira jesuítica, a matéria de reflexão em três partes ou capítulos, como é que o movimento qua tali quase sumiu? Foi a Hierarquia que lhe retirou o mandato ou o deixou cair? Foi ele que se partiu em os/as que entendiam que lhes cabia o aprofundamento da doutrina sem tirar as consequências práticas (e sem o apelo da ação perdeu ânimo) e os/as que se submergiram no mundo da ação olvidando o fervor evangélico? É de pensar, não?
2018.10.23 – Louro de Carvalho