Mostrar mensagens com a etiqueta África. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta África. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

“Perseguidos e Esquecidos?”


Perseguidos e Esquecidos?” é o título do novo relatório da AIS (Fundação Ajuda à Igreja que Sofre) sobre os cristãos oprimidos por causa da sua fé, que mostra claramente que o cristianismo é a religião mais perseguida em todo o mundo, sendo que em alguns locais podemos falar mesmo de um “genocídio”. 
A este respeito, Catarina Martins Bettencourt, responsável pelo secretariado nacional da AIS em Portugal lamenta que o Ocidente feche os olhos à violação dos direitos humanos na China, pondo à frente os negócios e as relações comerciais e diz que o acordo da Santa Sé com Pequim não garantiu mais liberdade religiosa aos católicos chineses, antes pelo contrário.
Em entrevista à Renascença e à Ecclesia conduzida por Ângela Roque (Renascença), Octávio Carmo (Ecclesia) –, de cujos conteúdos mais relevantes se dá conta, explica tudo.
***
Tendo começado por ser questionada sobre o alheamento dos média e dos responsáveis políticos em relação à perseguição religiosa e à falta de liberdade de culto, refere haver uma cada vez maior “maior perceção e preocupação das entidades oficiais, das instâncias internacionais para esta questão da liberdade religiosa, e em particular para o que está acontecer com os cristãos”. Todavia, sente-se “que é muito pouco e que muitas vezes a comunidade cristã acaba por ficar relegada para um segundo plano, não tem a expressão nem a dimensão”. E aponta:
Por tudo o que se passa no mundo, pela forma como os nossos governantes também lidam com estas questões, vemos que não conseguem ainda falar abertamente da perseguição aos cristãos. Muitas vezes há pruridos em defender a comunidade cristã por poder parecer que estamos a favorecer uma comunidade em detrimento de outra.”.
Quanto a essa perceção entre nós, observa:
Em Portugal também, muitas vezes é difícil falar desta questão dos cristãos. Enquanto instituição sentimos que precisamos de continuar a falar mais, de trazer cada vez mais estes assuntos para os meios de comunicação social, para que as pessoas estejam alertadas de que esta não é uma coisa do passado, é uma coisa de hoje, que há perseguição, que há muitos países onde não há liberdade religiosa e não se pode exprimir livremente o nosso credo. E ao mesmo tempo dizer com clareza – e os números e todos os factos que temos apontam para isso – que a comunidade cristã é mais perseguida hoje em dia.”.
No atinente ao facto de ter sido Paulo Portas a apresentar este relatório, que relevou a importância do trabalho da AIS para garantir que os cristãos não são esquecidos, disse esperar que a sua presença tenha impacto, pois trata-se de “um homem que tem estado ativo no meio político, que continua ativo nos meios de comunicação social”. E acentua:
É preciso trazer esta questão para os media, para o público em geral, dizer a todos claramente que o cristianismo  é o mais perseguido e que precisamos de fazer alguma coisa. Porque estamos a assistir ao fim da presença da comunidade cristã em muitos países do mundo, e isto deveria preocupar a todos porque, a partir do momento em que não temos liberdade de expressão da nossa fé, as outras liberdades ou já se perderam, ou estão em risco de se perder.”.
Depois, assegura que “é preciso olhar para estas questões da fé e da religião como um assunto que é um assunto público que deve ser debatido”.
Interpelada sobre o impacto dos relatórios periódicos da AIS, encarece a importância destes relatórios (que são o testemunho do dia-a-dia de sofrimento de muitos cristãos no mundo), a ponto de ter havido declarações das Nações Unidas, de alguns governos do mundo. Menciona a declaração da própria ONU do Dia Internacional das Vítimas da Violência em Relação à sua Religião ou Crença (22 agosto). E acrescenta:
Tudo isto resulta do lobby que tem sido feito pela AIS e por outras instituições no sentido de levar estes relatórios e estes testemunhos, trazer pessoas dos vários países que estão a sofrer e levá-los a estas instâncias. E isto tem sido  muito importante para alertar e para despertar as consciências dos governantes de que é preciso olhar para isto, que a realidade não é o que se passa no nosso gabinete ou no nosso continente, que há muito mais para além disso. (…) E só com esses relatórios, com factos, é que conseguimos alertar as pessoas.”.
Refere que este relatório vai ser apresentado às autoridades portuguesas e espera o convite do Parlamento para a AIS discutir o tema com os deputados. E explica:
Temos feito esse esforço de levar estes documentos ao Parlamento, às instâncias de Governo, ao Presidente da República, para que eles tenham consciência do que se está a passar e também possam, na medida do possível, exercer a sua pressão junto das entidades internacionais, de forma que este tema seja debatido e sejam tomadas medidas. Porque é disso que se fala neste relatório, que temos de tomar medidas concretas para poder ajudar estas comunidades que sofrem e que estão a ser perseguidas nos seus países.”.
***
Falando de conteúdos do relatório em concreto, diz que o mais surpreendente “foi comprovar que poderíamos estar a assistir ao fim da presença da comunidade cristã no Iraque e talvez na Síria”. Com efeito, os números são dramáticos: aponta-se “para apenas 150 mil, com possibilidade de serem menos, fala-se de 120 mil, ou seja, estamos praticamente sem presença da comunidade cristã no Iraque”, quando em 2003 eram 1 milhão e meio.
Ora, a presença cristã “é uma presença histórica, vem do início do cristianismo e a comunidade caldeia, por exemplo, ainda hoje reza o Pai Nosso em aramaico”, afirmam os entrevistadores. E Catarina Martins, começando por anuir, diz:
“Em aramaico, sim. No fundo é o fim das nossas raízes enquanto comunidade cristã no ocidente, e infelizmente o que nós escrevemos há quatro anos parece agora concretizar-se pelos factos. E é bom frisar que este relatório – que quem quiser pode consultar no nosso site – acaba em julho de 2019, portanto, de julho até hoje, outubro de 2019, a situação ainda se deteriorou mais, tanto no Iraque como na Síria.”.
Confessa que não se sabe do impacto adicional que a intervenção militar na Síria possa ter sobre esta comunidade cristã, que é cada vez mais pequena. E, anotando que o relatório aponta para um decréscimo de 90% da comunidade cristã no Iraque (“nos últimos anos, no período de uma geração caiu 90%”), verifica:
Estamos a assistir a dias históricos, tristes mas históricos, no sentido de que estamos a assistir ao desaparecimento desta comunidade. É um facto marcante neste relatório.”.
Explicando a não perceção do predito impacto (houve morte de civis, fuga de cristãos), aduz:
Isso não está incluído no último relatório, porque aconteceu agora, mas os relatos que temos é que nalgumas zonas onde a comunidade cristã estava presente, mais uma vez, foram obrigados a fugir e a ir para outras zonas. Continuam a ser uma comunidade pequena e continuam a ser uma comunidade desprotegida. Os últimos relatos que recebemos mostram que a Igreja está preocupada com a situação, com qual será o impacto destes ataques numa comunidade tão pequena e que, provavelmente, vai tentar fugir e escapar de novo. É mais um fator que fará aumentar o êxodo e deixar de vez o Médio Oriente.”.
É certo que há territórios em que já se iniciara um processo de reconstrução e de regresso dos cristãos. Questionada se isso pode estar em causa, expõe:
Nas zonas em que nós estamos a ajudar, neste momento, à reconstrução e ao regresso, ainda não está em causa. Não sabemos, efetivamente, o que vai acontecer, pelo que temos de esperar. O que sabemos, porque recebemos essa informação da Igreja local, é que já há pequenas comunidades – em zonas historicamente cristãs, mas para as quais os cristãos ainda não tinham voltado –, pequenos grupos que ainda resistiam e que tiveram de sair desta vez.”.
E não deixa de assinalar como outro facto marcante “a mudança de continente, ou de zona do mundo, onde há maior perseguição”. Na verdade, se nos últimos anos “o Médio Oriente era a grande preocupação da Fundação AIS, era onde havia maior perseguição aos cristãos”, neste relatório, no período analisado, “vemos que há um desvio para a Ásia”, com os ataques do Sri Lanka e das Filipinas e com a situação a deteriorar-se na China.
***
Porém, sendo a Ásia o continente menos seguro neste momento para os cristãos, não deixa de ser preocupante o que se mantém relativamente à África.
Refere a entrevistada, como conclusão muito importante, “que neste período houve uma grande preocupação da comunidade internacional para esta questão da perseguição”, mas que poderá, infelizmente, “ter sido tarde para estas comunidades, se olharmos para o que está a acontecer no Iraque e na Síria”. E faz votos para que não seja demasiado tarde para as outras comunidades cristãs “que estão a passar neste momento o mesmo que o Iraque e a Síria já passaram”.
De facto, a derrota aparente do autoproclamado Estado Islâmico no Iraque e na Síria não foi a tempo de evitar males maiores em termos de destruição do cristianismo. Diz Catarina Martins:
Há muitas famílias que regressaram às suas casas, às suas terras de origem, mas temos problemas gravíssimos de segurança, a comunidade cristã continua a não se sentir segura. Temos problemas gravíssimos de emprego para os cristãos, e continuamos a sentir pressão, porque está neste momento a ser discutida uma nova Constituição no Iraque em que as minorias ficam ainda mais desprotegidas do que foram até agora.”.
Neste contexto, a Igreja preocupa-se seriamente em perceber qual será o futuro destes poucos que restam, até que ponto é que a pressão exercida durante anos pelo autoproclamado Estado Islâmico marcou o ponto final da presença desta comunidade, apesar de todos os esforços.
Sendo estas comunidades alvo de quem quer atacar o Ocidente (isto é, a pertença cristã é vista como ocidentalismo), a entrevistada, ao ser questionada como o Ocidente olha para estas minorias, disse:
Muitas vezes esquecemo-nos. Dou um exemplo: no domingo de Páscoa, quando houve os ataques no Sri Lanka, na missa aonde fui o padre nem sequer falou nisso. E este é apenas um exemplo, provavelmente isto repetiu-se em várias paróquias, em vários países da Europa.”.
Releva que o Estado Islâmico perdeu o território, mas não perdeu a força, a ideologia que se mantêm nestes territórios, o que “é o mais perigoso” por ser “o mais difícil de controlar”. Com efeito, um ataque a estas comunidades é como se fosse um ataque ao Ocidente, mas “estamos muitas vezes distraídos com as nossas coisas” e “não olhamos para isto como sendo uma coisa nossa, não sentimos que nos estão a atacar a nós também, como cristãos, como comunidade”.
***
Sobre a postura do Vaticano e do Papa Francisco (A AIS é uma fundação pontifícia, dependente da Santa Sé), frisa que receberam o relatório e os dados são do seu conhecimento. E de Francisco vinca:
Tem sido, de facto, uma pessoa extraordinária, neste sentido de nos alertar para o que se está a passar no mundo, de nos chamar a atenção enquanto cristãos: há comunidades que estão a sofrer e nós, como cristãos, temos este dever de nos lembrar deles, de rezar por eles, apoiá-los na nossa solidariedade e nas nossas orações. Isso tem sido extraordinário para chamar a atenção, porque muitas vezes estes ataques que acontecem pela África, pela Ásia, passam como que despercebidos no Ocidente.”.
Quanto à China, indica que os dados “apontam para o aumento da perseguição aos cristãos”, apesar do acordo entre Pequim e o Vaticano para a nomeação de bispos. E explana:
Os dados de que nós dispomos (…) apontam para uma deterioração da situação. Hoje é mais difícil, apesar de haver um acordo provisório, a presença da comunidade cristã. Tem havido como que uma ‘limpeza’ dos símbolos, uma pressão sobre a comunidade cristã muito grande, nos últimos tempos, maior até do que antes do acordo. Isto são factos que podemos mostrar: a situação piorou para a comunidade cristã na China nos últimos dois anos.”.
E a razão de os ocidentais se calarem quanto ao não respeito pelos direitos humanos e, em particular, o da liberdade religiosa prende-se com a força do dinheiro, que “acaba por falar mais alto”. E a responsável pelo secretariado nacional da AIS em Portugal observa:
As relações económicas acabam por ter uma força muito grande, não vemos os governos nem as instâncias internacionais a falar desta questão abertamente ou a dizer ‘não há negócios, não há relações comerciais e económicas se não houver respeito pelos Direitos Humanos’ na China”.
***
Falando da África, onde o cristianismo está a crescer e há muitas vocações, mas a situação é crítica em termos de perseguição religiosa, desenvolve:
Neste relatório mostramos que a situação piorou na República Centro-Africana, mas temos a Nigéria, o Sudão, o Egito, onde tudo se mantém igual. Não houve alterações significativas, a situação manteve-se dramática: não piorou, mas também não melhorou. Continuamos a assistir à presença de grupos radicais, que atuam de uma forma impune, com algum esquecimento do Ocidente…”.
Refere que, no caso da Nigéria, o Boko Haram, que já surgiu há 10 anos, “continua a atuar, a provocar o deslocamento de milhares e milhares de pessoas, continua a provocar a morte, a destruir aldeias”. Porém, no Ocidente continuamos “a não olhar para a África, um continente riquíssimo, com muitas potencialidades” e que, “em termos de Igreja, é um continente muito vivo, com muitas vocações, mas que continua a sofrer, diariamente, estas perseguições”.
Sobre a complicação das coisas por via da ameaça radical islâmica e dos conflitos tribais, frisa:
Há muitas dificuldades para as comunidades, além das questões económicas: são países riquíssimos, mas com uma corrupção enorme, em que muitas vezes as pessoas acabam por ser expulsas porque vivem em zonas onde poderá haver exploração. É um conjunto de fatores (…) que faz com que seja o continente com o maior número de deslocados e o maior número de pessoas pobres.”.
É, pois, “um continente com muito potencial, mas que está sozinho, muitas vezes, a tentar combater estes grupos radicais, que querem construir um califado e ser um continente islâmico”.
No atinente à presença da Igreja Católica e da AIS, refere:
Na apresentação do relatório esteve connosco o padre Gideon, da Nigéria, que veio exatamente da diocese mais mártir do país, Maiduguri, onde o Boko Haram nasceu e está muito ativo, ainda. Ele falou-nos da importância da AIS, e disse uma coisa muito bonita: ‘o título deste relatório é «Perseguidos e Esquecidos?». Nós somos perseguidos, mas não somos esquecidos pela AIS’.”.
E a ajuda da AIS não é apenas ajuda pastoral, “porque neste momento, para se poder ajudar pastoralmente uma comunidade, primeiro tem que se alimentar, que ter segurança”. É, de facto, “necessário ajudar, ter espaços para que as pessoas se encontrem, apoiar a parte da formação e da mobilidade para os padres”. E diz Catarina Bettencourt:
Nós somos um bocadinho da Nigéria, que é um país enorme, onde as necessidades são muitas. A AIS tem estado presente, naquilo que a Igreja necessita, porque essa é uma forma de as comunidades cristãs conseguirem continuar a estar presentes, nos seus países.”.
Em relação aos projetos que a AIS está a apoiar, neste momento, contabiliza:
Em 2018, apoiámos cerca de 5 mil projetos, em 145 países. Há sempre esta generosidade, foram cerca de 80 milhões de euros que nós enviámos para estes países, em projetos concretos de ajuda pastoral: construção de igrejas, de locais de apoio às paróquias, de ajuda à mobilidade, à formação, à comunicação social. Porque em muitos destes países as distâncias são tão grandes que é preciso o apoio da comunicação social. E, depois, a parte de emergência, da sobrevivência das próprias pessoas, que é fundamental.”.
E diz que “tudo isto se vai materializando com a generosidade dos benfeitores, em Portugal e um pouco por todo o mundo.
Referindo que a contribuição de Portugal tem sido significativa e que tem aumentado, sempre, verifica esta cada vez maior preocupação por estas necessidades da parte dos portugueses, pois se “não estamos bem” – diz – “há muitos que estão pior do que eu e eu tenho de ajudar”.
Releva o testemunho do Padre Gideon, que enaltece o apoio extraordinário da AIS a nível psicológico, de tratamento das pessoas, e que contou como é difícil, especialmente para as mulheres, e as mulheres cristãs são uma vítima ainda maior: “muitas foram raptadas, estiveram dois, três anos com o Boko Haram, foram violadas e, quando regressam, as suas famílias, muitas vezes, não as aceitam, porque vêm com filhos que são filhos de terroristas”. E a mensagem que o Bispo de Maiduguri enviou foi:
Sem a ajuda da Igreja, de instituições como a AIS, não seria possível que eles estivessem vivos e se mantivessem presentes no sítio onde querem estar, porque nasceram ali, viveram ali e têm o direito de ali estar”.
***
Há efetivamente muitos que se preocupam e que ajudam, mas as necessidades são grandes e cada vez mais e maiores. Por isso, todas as ajudas são bem-vindas. E, sobretudo, importa travar a perseguição e o subdesenvolvimento e anular as estruturas sociais, políticas e económicas de pecado. A instauração da paz passa por aí. E a esperança de que a ordem mundial mudará para melhor tem que se manter viva.
2019.10.25 – Louro de Carvalho

sábado, 29 de dezembro de 2018

A quadra natalícia também sob o signo do martírio


Nem seria muito de admirar se não fosse muito doloroso, mas o Natal também obriga a contemplar a vertente do martírio. Desde logo, o Menino nascido na gruta belemita vinha destinado ao martírio redentor do Gólgota. Tanto assim é que a cruz é o caminho de Cristo como há de ser o caminho dos seus discípulos e seguidores:
Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa, há de encontrá-la.” (Mt 16,24-25).
E uma estrofe do cântico de Natal “Cristãos, alegria que nasceu Jesus” contém esta mística:
Lá nos altos Céus, / Honra e glória a Deus / Que nos deu Jesus! 
 Paz na terra à alma / Que serena e calma / Vive unida à cruz!”.
Depois, a 26 de dezembro, celebrou-se a festa de Santo Estêvão, o protomártir, que foi detido pelas autoridades judaicas e levado diante do Sinédrio (a suprema assembleia de Jerusalém), que o condenou por blasfémia, sendo sentenciado a apedrejamento. Entre os presentes na execução, estaria Saulo, o futuro São Paulo, durante os seus dias de perseguidor dos cristãos.
Muitos Padres da Igreja, como Santo Agostinho, atribuem a conversão de Saulo às orações de Estêvão. Agostinho diz: Si Stephanus non orasset, ecclesia Paulum non haberet.
A 27, celebrámos a festa de São João, Apóstolo e Evangelista. Conforme tradição unânime, viveu em Éfeso em companhia de Nossa Senhora e foi colocado, sob o imperador Domiciano, dentro duma caldeira de óleo a ferver, daí saindo ileso e, todavia, com a glória de ter dado testemunho. Depois do exílio de Patmos, tornou definitivamente a Éfeso, onde exortava continuamente os fiéis ao amor fraterno, como resulta das suas três cartas, acolhidas entre os textos sagrados, como também o Apocalipse e o Evangelho. Morreu carregado de anos em Éfeso durante o império de Trajano (98-117) e aí foi sepultado.
A 28, celebrou-se o martírio dos Santos Inocentes, evocando o evento bíblico conhecido como o Massacre dos Inocentes, em que Herodes, rei da Judeia, terá condenado à morte todos meninos da cidade de Belém e arredores, com medo de perder o seu trono para o recém-nascido “Rei dos Judeus”, anunciado pelos magos. Os meninos assassinados ficaram conhecidos na Igreja como os “Santos Inocentes” e como os primeiros mártires cristãos.
A primeira comemoração do Dia dos Santos Inocentes na igreja ocidental remonta ao ano de 485, no “Sacramentário Leonino”. A data da celebração varia entre o dia 27 e o dia 29, consoante o tipo de Igreja. Para a Igreja Católica, a Igreja da Inglaterra e a Igreja Luterana, a data da celebração é o dia 28 de dezembro.
Francisco, depois de, no dia 26, ter estabelecido a similitude entre Estêvão e Cristo, no dia dos Santos Inocentes veio exortar a acolher em Jesus o amor de Deus. O twitter do Papa inspira-se na sua Mensagem de Natal de 2017, em que recordou todos os cantos do mundo onde as crianças sofrem. Diz agora o Papa:
Acolhamos no Menino Jesus o amor de Deus e vamos empenhar-nos em tornar o nosso mundo mais digno e humano para as crianças de hoje e de amanhã”.
Na Mensagem do Natal de 2017, o Santo Padre recordava todos os lugares do mundo onde as crianças sofrem, visualizando Jesus nos rostos das crianças no Oriente Médio, onde “continuam a sofrer com o aumento das tensões entre israelenses e palestinos”, nos rostos das crianças da Síria, “ainda marcados pela guerra que ensanguenta esse país há anos”, ou ainda os rostos das crianças do Iraque, do Iémen, da África; nos rostos de todas as crianças que vivem em “áreas do mundo onde a paz e a segurança estão ameaçadas pelo perigo de tensões e novos conflitos”, ou naqueles rostos de “tantas crianças forçadas a deixar os seus países, a viajarem sozinhas em condições desumanas, sendo presas fáceis para os traficantes de seres humanos”. E afirmava:
Enquanto o mundo está a ser atingido por ventos de guerra e um modelo de desenvolvimento já obsoleto continua a causar degradação humana, social e ambiental, o Natal convida-nos a recordar o sinal do Menino e que o reconheçamos nos rostos das crianças, especialmente daquelas para quem, como Jesus, não há lugar na estalagem”.

Historia Antiga (1937) – Miguel Torga

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.
E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.

Mas, por acaso ou milagre aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora, fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou esse palmo de sonho
Para encher o mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

***
Obviamente, não podemos ficar a olhar só para os martírios do passado. Hoje eles praticam-se e são bem bárbaros, nada ficando a dever aos demais martírios que a História regista.
Assim, no ano que está prestes a terminar, a agência Fides apresenta o relatório com números e circunstâncias em que missionários – “batizados comprometidos na vida da Igreja” – foram mortos em diversas partes do mundo de forma violenta, embora não necessariamente por ódio à fé. No total são 40, quase o dobro de 2017, os missionários assassinados no ano que está prestes a acabar. A maior parte deles, sacerdotes, em número de 35.
Segundo dados recolhidos pela Fides, após 8 anos consecutivos em que o número mais elevado de missionários assassinados foi registado na América, desta feita, em 2018 é a África a ocupar o primeiro lugar neste ranking trágico. Também, neste ano  muitos perderam as suas vidas durante tentativas de roubo ou furto em contextos sociais de pobreza, degradação e onde a violência é a regra da vida, a autoridade do Estado ausente ou enfraquecida pela corrupção ou onde a religião é instrumentalizada para outros fins.
São 19 sacerdotes, um seminarista e uma leiga as vítimas em África. Comove a morte de Thérese Deshade Kapangala, da República Democrática do Congo, que tinha apenas 24 anos de idade e estava a preparar-se para começar o postulantado entre as Irmãs da Sagrada Família. Foi assassinada em janeiro 2018 na violenta repressão dos militares que tentavam sufocar os protestos contra as decisões do Presidente Kabila, promovidos por leigos católicos em todo o país. Cantava no coro da paróquia e era muito ativa na Legião de Maria. Tendo naquele dia participado na Missa na cidade de Kintambo, ao norte de Kinshasa, tentou organizar uma marcha de protesto. Os militares do exército, postados do lado de fora da igreja, abriram fogo contra os manifestantes que buscavam abrigo no templo. Thérese foi atingida ao tentar proteger uma criança com o seu corpo.
Um massacre brutal em que foram mortos na Nigéria o Padre Joseph Gor e o Padre Felix Tyolaha por pastores jihadistas nos povoados de Mbalom, no Estado de Benue, na parte central do país que divide o norte de predominância muçulmana, do sul em grande parte habitado por cristãos. O massacre ocorreu na madrugada de 24 de abril de 2018, durante a Missa matinal, muito frequentada. Tinha acabado de se iniciar a celebração e os fiéis ainda estavam a entrar para a igreja, quando foram disparados vários tiros por um grupo armado. Foram mortas a sangue frio 19 pessoas, incluindo os dois padres. A seguir, os bandidos, entrando no povoado, saquearam e destruíram mais de 60 casas.
Também o idoso e muito amado padre Albert Toungoumale-Baba, centro-africano (de 71 anos), foi morto na Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, não muito distante do bairro PK5 Bangui, capital da República Centro-Africana, onde houve um massacre provocou a morte de, pelo menos, 16 pessoas e causou uma centena de feridos. Um grupo armado atacou a paróquia, enquanto o Padre Albert e alguns fiéis estavam a celebrar a Missa da festa de São José no 1.º de maio de 2018. O sacerdote, um dos mais idosos da diocese de Bangui, muito estimado pelos fiéis, encontrava-se na igreja para a celebração como capelão do movimento “Fraternité Saint Joseph” e foi assassinado de súbito.
Também a América pagou alto tributo de vidas em 2018. Foram assassinados 12 padres – 7 somente no México – e 3 leigos. Entre as vítimas, chama atenção a história do Padre Juan Miguel Contreras García, ordenado sacerdote pouco antes de morrer. Tinha apenas 33 anos, quando foi morto na noite de 20 de abril de 2018,no final da Missa que celebrava na Paróquia São Pio de Pietrelcina, em Tlajomulco, Estado de Jalisco (México), onde estava em substituição de outro sacerdote ameaçado de morte. Um comando invadiu a igreja e dirigiu-se à sacristia, onde abriu fogo contra o sacerdote.
O Padre Riudavets Carlos Montes, um jesuíta espanhol de 73 anos, foi encontrado amarrado e com sinais de violência na comunidade indígena peruana de Yamakentsa. O Padre Riudavets tinha formado centenas de líderes indígenas e era totalmente consagrado à sua missão, sempre disponível. Amava a comunidade e por ela era amado.
Das diferentes histórias que a Fides relata neste final de 2018, surge um único denominador comum: a partilha que, em cada latitude, padres, religiosos e leigos são capazes de estabelecer com as pessoas, levando um testemunho evangélico de amor e de serviço para todos, e a coragem pela qual, mesmo diante de situações de perigo, os missionários permanecem no seu lugar para serem fiéis aos seus compromissos.
***
Por sua vez, Pietro Parolin, Cardeal Secretário de Estado da Santa Sé, que celebrou o Natal com as comunidades cristãs do Iraque, em entrevista ao Vatican News, confessa: No Iraque toquei a fé de uma igreja mártiruma Igreja que, entre sofrimentos e tribulações, testemunha a alegria e a beleza do Evangelho”. Compartilha a esperança dos fiéis iraquianos duma visita do Papa e ressalta a importância da colaboração entre cristãos e muçulmanos para um futuro pacífico. E diz que a palavra “emoção” é a correta para descrever o que viveu no Iraque: “uma grande emoção” e alegria sua e das comunidades. Sentiu-se “muito feliz” por lhes poder levar “a proximidade do Papa, o seu afeto, a sua bênção, a atenção com que ele sempre seguiu os seus acontecimentos”. Naturalmente, a visita “foi uma ocasião para compartilhar os sofrimentos dos anos recentes e também um pouco das incertezas do presente, mas ao mesmo tempo, também as esperanças pelo futuro”.
Sobre a vivência da fé com alegria no meio de tantas tribulações, refere:
Nos pronunciamentos que fiz, sobretudo nas homilias, insisti muito neste ponto: ‘Vós sois um testemunho para a Igreja universal’. A Igreja universal é-vos grata pelo que vivestes, como vós vivestes isso,  e deve pegar no  vosso exemplo, desta capacidade de suportar sofrimentos, aflições, pelo nome de Jesus’. Eu diria que esta é uma exemplaridade que eles propõem a toda a Igreja que – tal como diz o Concílio – ‘vive entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus’. No entanto, o que mais me impressionou foi o orgulho – no bom sentido da palavra – com que esses irmãos e irmãs vivem a sua fé: sentem-se orgulhosos por serem cristãos e por continuarem a sê-lo no meio de tantas dificuldades, tantas provações e sofrimentos!”.
Em relação às imagens fortes e tocantes da visita ao Iraque, confessa que foram muitas, pois tem cada encontro gravado na sua memória. Porém, destaca a destruição da cidade de Mosul. Na verdade, foi confrangedor “ver as igrejas, mas também as casas, os prédios, a parte inteira da cidade que mais sofreu pelos acontecimentos bélicos”.
Outra coisa que o chocou foram essas igrejas (tanto as caldeias como as sírio-católicas) “cheias de gente, cheias de homens, de mulheres, de crianças e de jovens”, em que “todos cantavam e rezavam”, impressionando “pela sua maneira de rezar”. Por outro lado, em Mosul, “era difícil andar pela rua porque havia entulho no meio”. O governador de Mosul quis cumprimentar o Cardeal, que sentiu o momento em que o governador lhe pegou pela mão “como um momento muito bonito, que deveria ser simbólico daquela que é a colaboração entre cristãos e muçulmanos: tomar-se pelas mãos e ajudar-se mutuamente”. E, naquele instante, estando a chover muito, apareceu um lindo arco-íris no céu, no que vê o símbolo “da paz, da aliança”.
A visita do Cardeal Secretário de Estado acendeu as esperanças duma visita de Francisco ao Iraque. A este respeito, o purpurado disse:
As pessoas ficaram muito contentes por essa presença. Sentiram também na presença do Secretário de Estado a presença do Papa […] Mas todos, a uma só voz, esperam que ele possa visitar o Iraque em breve e confortá-los pessoalmente. E a essa esperança dos cristãos iraquianos também eu me uno: que sejam criadas as condições,  naturalmente, para que o Santo Padre possa ir ao Iraque e possa compartilhar momentos de oração e de encontro com nossos irmãos.”.
Sendo-lhe recordado o discurso de saudação de Natal à Cúria, em que o Pontífice falou de duas grandes aflições, o martírio e os abusos sexuais por parte de membros do clero, Parolin, frisou:
As minhas esperanças são que este encontro, convocado pelo Papa, de todos os presidentes das Conferências Episcopais, possa fortalecer ou continuar, melhor dizendo […] a atenção em favor das vítimas, e sobretudo a criação de condições de segurança para menores e pessoas vulneráveis. Parece-me que é sobretudo neste ponto que a atenção dos participantes estará concentrada: isto é, como criar um ambiente seguro para os menores e as pessoas vulneráveis.”.
Ainda sobre o encontro de fevereiro, diz esperar que, a partir de então, se caminhe nesta estrada e que exista uma abordagem cada vez mais comum, “de toda a Igreja diante desse fenómeno”, mas que, “naturalmente, depois cada um” possa aplicar, “também de acordo com a situação local em que se vive, mas que seja clara a ‘política’ para todas as Igrejas” e “que seja também uma abordagem que tenha presente todos os aspetos do fenómeno, que são múltiplos e interconectados entre si”, procedendo-se, depois, com uma abordagem “inspirada pelos critérios do Evangelho em relação a todas as pessoas”.
E, a concluir, o Cardeal Parolin faz votos, para 2019, por que, diante de tantos desafios atuais,o Senhor sustente o Santo Padre na sua entrega contínua em favor da Igreja e das comunidades cristãs que se encontram em situações de dificuldade e marginalidade” e que “possa continuar a acender essa esperança e esse amor nos corações dos homens, motivo pelo qual tantos lhe querem tão bem e tantos o sentem particularmente próximo”, vendo muitos nele “a esperança de um mundo mais solidário, de um mundo mais pacífico, de um mundo feito à medida do homem e da fraternidade”.
***
Enfim, martírio de morte para uns, martírio de tribulação para outros e proximidade de quantos sofrem ou se alegram – eis a onda diversificada e intensa que marca a Igreja peregrina, que vive a beleza exigente do mistério do Natal do Senhor, alimentando-se do banquete da Última Ceia e anunciando a Sua Morte e proclamando a sua Ressurreição até que Ele Venha.
2018.12. 29 – Louro de Carvalho

sábado, 8 de dezembro de 2018

Angola avalia reclamar bens culturais à guarda do Estado português


A comunicação social está avançar com a informação de que “Angola avalia reclamar bens culturais à guarda do Estado português”. O Expresso refere que Angola quer as suas “bonecas”, ao passo que o DN adianta poderem ser reclamadas “máscaras, artefactos, bonecas, objetos do uso quotidiano”.
A discussão da matéria, ainda não chegada a Portugal, deve-se, segundo o Expresso, a Macron, que abalou os alicerces museológicos europeus ao institucionalizar a discussão sobre a restituição de bens culturais aos países de origem. De facto, o parecer da historiadora francesa Bénédicte Savoy (do Collège de France, a instituição ancestral de investigação e ensino) e do economista senegalês Felwine Sarr, autor do influente livro “Afrotopia”, entregue ao Governo francês aconselhou a restituição de peças de arte aos territórios de origem. As primeiras (26 no total), que integram uma coleção de bronzes à guarda do Museu do Quay Branly, em Paris, voltarão ao Benim. Ganham, assim, forma as declarações do presidente francês numa universidade africana: “O património africano não pode estar prisioneiro dos museus europeus”.
Entre nós, sabe-se que, embora ainda não tenha chegado à DGPC (Direção-Geral do Património Cultural), qualquer pedido de restituição dos bens culturais que estão em museus portugueses, há tal intenção, como confirmou ao Expresso a Ministra da Cultura de Angola, Carolina Cerqueira:
É imperioso que a diplomacia angolana, em colaboração com o Ministério da Cultura e outros departamentos ministeriais, possa dar início a consultas multilaterais com vista a regularizar a questão da propriedade e da posse, por um lado, e, por outro lado, da exploração dos bens culturais angolanos no estrangeiro”.
Em Portugal, é no Museu Nacional de Etnologia que se encontram mais peças de origem angolana. Mas o Museu Nacional de Arqueologia e Museu de História Natural e da Ciência também são detentores de alguns destes bens. A maioria resulta das recolhas do antropólogo Jorge Dias e da sua equipa no âmbito das Missões de Estudo das Minorias Étnicas.
O atual diretor do Museu Nacional de Etnologia, Paulo Costa, disse ao Expresso que o critério de devolução tem de ser muito bem definido porque pode acabar com os museus como existem atualmente. E mostra-se tranquilo com a origem das peças que se podem ver nesta instituição fundada e dirigida por Jorge Dias em 1965 albergando o produto das expedições. E António Pinto Sousa Ribeiro, investigador e professor catedrático do CES (Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra) e ex-curador da Fundação Calouste Gulbenkian e da Culuturgest, sustenta que Portugal tem de se preparar para a hipótese de devolução, mas tal só poderá acontecer se a transferência tiver sido ilegal e se a devolução for solicitada por um Estado, nunca por privados.   
A questão não é nova. Os americanos do Instituto Smithsonian foram precursores desta medida, quando o museu de Washington devolveu, em 2010, os esqueletos de mais de 60 pessoas de Arnhem Land, na Austrália, todos com menos de 120 anos, como noticiou a BBC. E, há quatro anos, a Grécia passou a reclamar a devolução dos mármores do Párthenon que estão no Museu Britânico. A UNESCO, que estabeleceu a Convenção para a Proteção do Património Mundial, Cultural e Natural, de 16 de novembro de 1972, tem sido a mediadora destes casos.
***
No atinente à França, já no passado dia 22 de novembro, recomendações filtradas pelos meios de comunicação social sustentavam a devolução generalizada tanto das obras roubadas como das resultantes de missões científicas ou de doações da administração colonial. Porém, não pode suceder que alguém esvazie aos museus de uns para encher os de outros. Por isso, os processos têm de ser cautelosos, progressivos e negociados entre as partes, como destaca o documento em tempo difundido diário francês Le Figaro. Não obstante, o Governo francês passou a envolver-se na ponderação sobre a possível restituição de coleções de arte africana presentes no seu território, no sentido de cumprir a promessa do Presidente Emmanuel Macron, de priorizar a devolução desse património, mas os diretores dos museus regionais vêm-se-lhe opondo.
O Le Figaro calcula que haja, nos museus franceses, 98 mil objetos africanos, que provêm, na sua maioria, de Chade, Mali e Camarões. Cerca de 46 mil chegaram ao país entre 1885 e 1960, no período colonial. O museu etnológico do Quai Branly, em Paris, possui 70 mil dessas obras, enquanto o resto se divide por outros museus, como o Museu do Exército, o Museu das Confluências, em Lyon, e outros centros mais pequenos em cidades como Bordéus ou Marselha.
Savoy e Sarr querem que se estabeleça um calendário preciso, pois a devolução constitui uma espécie de reparação da Europa às suas antigas colónias e abre uma nova “ética” nas relações entre os dois continentes.
O predito quotidiano relevou que, desde 1960, muitos países solicitaram à França, à Bélgica, ao Reino Unido e à Alemanha a devolução do seu património. Porém, o Ministério Negócios Estrangeiros francês rejeitou em concreto uma petição oficial do Benim, efetuada em 2016, considerando “inalienáveis” as coleções francesas. Agora, o referido relatório oficial, embora não vinculativo, propõe a modificação do Código do Património, questão espinhosa, porque os museus gálicos contêm numeroso património asiático, grego e egípcio, e esses países poderiam juntar-se às reivindicações dos africanos subsarianos. Não obstante, em novembro de 2017, num discurso na Universidade de Uagadugu, Macron disse não poder aceitar “que uma grande parte do património cultural de vários países africanos esteja em França”, sublinhando, como já se disse, que este não podia continuar “prisioneiro dos museus europeus”. E reiterou que “o património africano não deve estar visível em Paris, mas também em Dakar, em Lagos e em Cotonou”, desejando que, dentro de 5 anos se tenham criado as condições necessárias para o retorno temporário ou permanente do património a África.
Entre nós, o especialista em colonialismo Sousa Ribeiro, já mencionado, considerou “urgente” a realização dum inventário dos bens coloniais existentes nos museus portugueses e propôs só a restituição dos que foram “pilhados” e requisitados por um Estado, como se disse. Em entrevista à agência Lusa, o docente, a propósito da conferência sobre o património e a memória colonial, “Responsabilidades Coloniais, Legados e Perspetivas”, no Goethe Institut, em Lisboa, disse que “não há uma solução genérica para a restituição dos bens” e “cada caso é um caso”. E recordou que a Bélgica iria abrir em dezembro, perto da capital, Bruxelas, um Museu Africano no qual muitas coleções coloniais “vão ser apresentadas num conceito diferente daquele em que são expostas nos museus etnográficos, ou seja, introduzindo precisamente a questão da origem das peças”. Esta deve ser considerada, a meu ver, uma solução alternativa tão válida como a devolução, nos casos em que esta não se justifique ou seja demasiado penosa.
A base para o processo de restituição ou da referida solução alternativa é sempre o inventário, que deve começar a fazer-se quanto antes. Em Lisboa, o Padrão dos Descobrimentos inaugurou uma exposição coordenada por António Camões Gouveia, tendo como ponto de partida um “exercício científico-museológico” cujo desafio é “contar África e não a visão que de África tiveram os portugueses”.
***
Ora, Angola já recuperou peças de arte históricas desaparecidas durante a guerra civil, pois três marchands, duas leiloeiras, colecionadores e a Fundação Sindika Dokolo trabalharam em conjunto para recuperar peças de arte então desaparecidas, que regressam ao país. Assim, uma máscara de madeira vermelha maciça, um cadeirão de chefe tribal, um cachimbo com cabeça esculpida, uma taça para cozinhar mandioca e um pequeno banco redondo são 5 peças de arte, que faziam parte da coleção nacional à guarda do histórico museu angolano do Dundo (até desaparecerem, entre milhares de artigos, durante a guerra civil) e que foram descobertas e resgatadas.
Há uma sexta peça, encontrada recentemente, que se juntou às outras na entrega: uma máscara chokwe, descoberta de forma inesperada. Durante os trabalhos dos investigadores patrocinados pela predita Fundação – que iniciou, há alguns anos, um projeto de identificação e devolução de arte africana retirada ilegalmente dos países de origem –, uma série de pistas levou-as de volta ao portefólio do presidente da fundação, que se declarou  chocado por descobrir que tinha aquela máscara” na sua coleção, como contou ao Observador:
Lembro-me de que a comprei num leilão nos Estados Unidos, em 2007, quando estava a começar a minha coleção. E, na altura, a máscara estava a ser vendida como sendo de fonte legítima, até porque a arte chokwe não é exclusiva de Angola, também há em países como o Congo ou a Zâmbia.”.
Para o investidor de origem congolesa e um dos mais importantes colecionadores de arte africana e marido de Isabel dos Santos, empresária e filha do ex-presidente de Angola, a única decisão foi retirar a peça do seu portefólio e devolvê-la ao Estado angolano com as outras.
É de observar que fazer regressar a maioria destas peças de arte a Angola é um dos objetivos que levou Sindika Dokolo a iniciar um projeto de inventariação e aquisição de peças de arte retiradas do país durante os anos de conflito interno entre 1975 e 2002. Muitas dessas obras de arte clássica desapareceram do país e do Museu do Dundo, que reunia as principais coleções de arte angolana, bem como a documentação que permitia identificar essas peças, que hoje estão dispersas por vários países, nas mãos de colecionadores privados ou em parte incerta.
Além da máscara que estava na posse de Sindika Dokolo, aquelas 5 peças foram encontradas mercê do trabalho desenvolvido pela Fundação em colaboração com autoridades de vários países e outras entidades e especialistas. A operação, conforme explicou o investidor, postula uma equipa permanente dedicada a documentar peças e a identificar as referências. Depois, é preciso “triangular a peça: saber onde, como e quando surgiu a peça no mercado”. E, por fim, “identificar o depositário da obra” e ver o que fazer “para resgatar a obra”.
Quando se identificam as pessoas ou entidades detentoras da peça, a prática habitual passa por oferecer uma compensação, em jeito de indemnização (nunca aos valores do mercado, que seriam sempre mais altos) – embora, neste último caso, só uma das 5 peças (além da máscara chokwe que estava na coleção de Sindika Dokolo) tenha sido resgatada a custo zero. Daniel Hourdé, artista e colecionador residente em Paris, “aceitou devolver a cadeira sem pedir nada em troca”, como conta o presidente da Fundação, sem revelar os valores envolvidos nas restantes devoluções.
Graças à colaboração de colecionadores, de 3 marchands especializados e de 2 casas leiloeiras, estas peças históricas podem agora regressar ao Museu do Dundo. Neste caso, a Fundação Sindika Dokolo destaca as iniciativas de Didier Claes (em Bruxelas), de Daniel Hourdé (em Paris) e de Giorgio Rusconi (em Milão), diretamente envolvidos na devolução das obras. Todos os passos da operação, até ao momento do resgate, envolveram ainda vários investigadores (historiadores, antropólogos, museólogos), advogados e autoridades, caso da Interpol e de polícias nacionais. E a fundação conta com a ajuda de sites especializados, como os da Interpol ou ArtLossRegister – trabalho que pode ser precioso para continuar a ajudar o Museu do Dundo a recuperar muitas das obras perdidas.
Desde que a fundação iniciou, em meados de 2016, este trabalho de pesquisa mais aprofundado, cerca de 60 peças já foram referenciadas. Mas ainda falta muito para recuperar esse património perdido (apenas 1% foi recuperado). Daí que o investidor insista na necessidade de alertar para este problema e de debater a importância do património histórico dos países. A esse propósito, dá o exemplo do político britânico Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista, que defendeu publicamente a restituição à Grécia de esculturas do Párthenon, que se encontram no British Museum. E, em abril de 2017, o próprio Sindika Dokolo que exigiu à França que devolvesse a África obras de arte “pilhadas” durante o período colonial.
Até ao final deste ano, Dokolo espera reforçar o trabalho da fundação na recuperação dessa arte desaparecida: tem em curso a criação duma base de dados que centraliza imagens e informações técnicas que ajudam a identificar obras que surgem pontualmente no mercado de arte. Desta forma, vendedores e potenciais compradores poderão confirmar as origens de certas obras e certificar-se de que não investem em obras ilegítimas. Tal base de dados conta com informações do Bureau International de Documentation Ethnographique, mantido nos arquivos do Museu Real da África Central, em Tervuren, na Bélgica, e com o contributo de Marie-Louise Bastin, historiadora belga, especialista em arte chokwe e “uma das primeiras pessoas a denunciar o aparecimento no mercado internacional de peças pertencentes ao Museu do Dundo, no contexto da guerra civil angolana”.
No final de 2015, a Fundação resgatou e devolveu àquele museu angolano duas máscaras Pwo e uma estátua rara duma figura masculina, datadas do final do século XIX, início do século XX.
De acordo com os últimos dados conhecidos, a coleção de arte da Fundação, criada em 2003, em Luanda, é composta por mais de 5.000 obras, entre pinturas, gravuras, fotografias, vídeos e instalações, da autoria de 90 artistas de 25 países. Em março de 2015, o presidente da fundação trouxe algumas dessas obras ao Porto, onde inaugurou a exposição ‘You Love Me, You Love Me Not’, um dos vários projetos que anunciou na altura previstos para a cidade.
Não imaginava que Sindika Dokolo fosse um benemérito para a arte angolana!
***
A predita convenção da UNESCO não é retroativa, pelo que deixa muita margem de manobra para a negociação entre os atuais possuidores e os países de origem das obras de arte.
Há que fazer os respetivos inventários de forma exaustiva e fazer uma ponderação negociada e exigindo apenas o razoável. Seria um caos se todas as peças de arte deslocadas – por subtração, rapina (veja-se o caso das invasões francesas), fraude, venda imponderada – houvessem de ser restituídas. Portugal teria muito a ganhar e não creio que Macron tenha a generosidade com Portugal que tem com África. Quanto a Angola, concordo que se restituam as peças pilhadas no tempo da guerra civil, desde que reclamadas pelo Estado, não as anteriores, a não ser em casos excecionais devidamente ponderados e justificados. Não nos precipitemos!
2018.12.08 – Louro de Carvalho